Maldita seja a "hora de acordar".
Maldito o relógio biológico que não se enquadra.
É até provavel que eu durma, de cansaço e obrigação,
mas não, não de sono:
Por dentro, passada à meia-noite, meu corpo é uma festa.
Ele sabe que é hora de vida e poderia correr, dançar, ler
mas não lhe peça que descanse.
Eu peço. Todo dia.
Maldita a vida responsável que nos aprisiona.
Talvez, como afirmam os trans, eu tenha nascido no corpo errado:
devia era ter nascido gato.
terça-feira, 8 de abril de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
...
As
crianças dizem que não gostam de ler. Bobagem. A maior parte dos amantes
da literatura não gosta mesmo de ler: gosta é do que está escrito. Olha
as letras como baús de tesouros e abre, só pra ver o que tem dentro.
Acostuma a esperar maravilhas e brilha os olhos só de imaginar. Ler, ler
mesmo, o simples ato de decifrar o segredo dentro daquelas figurinhas
pequenininhas, uma arrumada ao lado da outra, só encanta os recém
alfabetizados, pra quem tudo é surpresa... acho eu.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Hilda
Permeava a minha infância o ter uma prima artista, poetisa. Palavras que eu, menina, não entendia mas mostrava aos colegas de classe como prova de uma origem mais nobre, de uma ascendência real.
Eu, na inocência desses anos primeiros, cria fervorosamente que ela era muito famosa por ter um livro publicado, e me orgulhava disso. Não entendia a pequenez de uma publicação ante o mar de obras que transbordam nas livrarias e menos ainda a grandiosidade desta escritora e seu lugar dentro desse mesmo universo.
Não, não convivi com ela. Pelo que sei, meu lado da família nunca o fez, exceto pela minha mãe, que a foi procurar já adulta.
Não, também não a conheci. Deixei pra um depois que não houve, talvez a grande e irremediavel bobagem da adolescência.
Eu, na inocência desses anos primeiros, cria fervorosamente que ela era muito famosa por ter um livro publicado, e me orgulhava disso. Não entendia a pequenez de uma publicação ante o mar de obras que transbordam nas livrarias e menos ainda a grandiosidade desta escritora e seu lugar dentro desse mesmo universo.
Não, não convivi com ela. Pelo que sei, meu lado da família nunca o fez, exceto pela minha mãe, que a foi procurar já adulta.
Não, também não a conheci. Deixei pra um depois que não houve, talvez a grande e irremediavel bobagem da adolescência.
...
Eu detesto esse discurso do "professor-herói".
Aliás, detesto esse personagem que povoa nosso senso comum: o "Professor".
Não pretendo vestir essa máscara e fazer esse teatro de todo dia.
O que eu quero? Quero fazer meu trabalho em paz, olhar no olho dos muitos e responder, de tantas, as perguntas que couberem na minha parca experiência de vida e profissão.
Não serei o símbolo da sabedoria nem a salvadora da nação. Não trabalharei por amor nem farei horas extras voluntárias. Não serei eu a irresponsável que permitirá, via esforço sobre-humano, que as falhas estruturais da educação pública formal desta cidade se escondam e, assim, se perpetuem.
E não, não quero ser o herói de ninguém.
Aliás, detesto esse personagem que povoa nosso senso comum: o "Professor".
Não pretendo vestir essa máscara e fazer esse teatro de todo dia.
O que eu quero? Quero fazer meu trabalho em paz, olhar no olho dos muitos e responder, de tantas, as perguntas que couberem na minha parca experiência de vida e profissão.
Não serei o símbolo da sabedoria nem a salvadora da nação. Não trabalharei por amor nem farei horas extras voluntárias. Não serei eu a irresponsável que permitirá, via esforço sobre-humano, que as falhas estruturais da educação pública formal desta cidade se escondam e, assim, se perpetuem.
E não, não quero ser o herói de ninguém.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Momo e o Senhor do Tempo
Ontem eu terminei de ler um livro lindo, desses que tocam no fundo da gente.
Um livro sobre uma menina que sabia ouvir - Ah, que dom raro esse. Sabia ouvir de um jeito tão especial que as idéias se clareavam só dela estar ouvindo.
Sobre uma comunidade, um bairro numa grande cidade, onde quem tinha dúvidas as resolvia "Falando com Momo".
Sobre uma grande cidade onde homens cinzentos engravatados roubavam o tempo das pessoas.
Uma alegoria sobre esses nossos tempos (apesar do livro ser de 1973) em que deixamos de ver os amigos, de conversar com a família, de acariciar os bichos, pra economizar tempo e curiosamente esse mesmo tempo nunca nos sobra.
Quem dera pudéssemos apenas exterminar os homens cinzentos e voltar, repentinamente, a olhar as flores pelo caminho.
"mas o tempo é vida, e a vida mora no coração"
Um livro sobre uma menina que sabia ouvir - Ah, que dom raro esse. Sabia ouvir de um jeito tão especial que as idéias se clareavam só dela estar ouvindo.
Sobre uma comunidade, um bairro numa grande cidade, onde quem tinha dúvidas as resolvia "Falando com Momo".
Sobre uma grande cidade onde homens cinzentos engravatados roubavam o tempo das pessoas.
Uma alegoria sobre esses nossos tempos (apesar do livro ser de 1973) em que deixamos de ver os amigos, de conversar com a família, de acariciar os bichos, pra economizar tempo e curiosamente esse mesmo tempo nunca nos sobra.
Quem dera pudéssemos apenas exterminar os homens cinzentos e voltar, repentinamente, a olhar as flores pelo caminho.
"mas o tempo é vida, e a vida mora no coração"
domingo, 24 de novembro de 2013
Eu na educação formal
Após quase dez
anos de trabalho na educação não-formal, eis que me vejo inserida
no contexto da escola pública, no caso, rede estadual de São Paulo,
EE. Bento Pereira da Rocha. A cada 50 minutos um novo grupo de 40
estudantes adentra minha sala e, ao fim de um período de seis aulas
os rostos, nomes e discursos se estapeiam na minha mente como torcida
inimigas em fim de campeonato.
O primeiro choque
foi o da quantidade. Até entrar na educação pública eu sabia de
cor os nomes completos, telefones, nomes das mães e, frequentemente,
a cor preferida e a data de aniversários dos meus educandos, ou
melhor, “educandas”, já que, como professora de balé e
coordenadora bandeirante eu até então só trabalhava com meninas.
Como educar alguém que eu não sei quem é? - foi a primeira
pergunta.
Eram muitos mas,
nas primeiras semanas, me ouviam. Passada a curiosidade, veio o
segundo choque: a indisciplina. Indisciplina, a meu ver, é quando os
estudantes deixam claro aos seus professores que eles não querem
estar ali. Que o simples fato de se sentarem à sua frente é o
resultado de uma longa sucessão de repressões e que sua manutenção
dependerá de quão efetivas são as suas formas de reprimir.
Tenho ouvido dizer
cada vez mais que a indisciplina é resultado de uma educação não
significativa, mas discordo. A indisciplina é a revolta contra a
autoridade. Está muito mais ligada à disputa de poder dentro desse
ambiente social em miniatura que é a sala de aula, que ao interesse
ou desinteresse pelo assunto a ser abordado ou pela metodologia
adotada que, no mais das vezes, os protagonistas do conflito sequer
sabem do que se trata. A classe é uma miniatura do mundo para os
jovens e, como na versão real, tem papeis sociais a serem
representados, que serão assumidos pelos educandos na medida em que
se vejam vagos, assim como, no mundo, a queda de um líder sempre
leva ao surgimento de outro. Nesse sentido, a indisciplina tem mais a
ver com vaiar a presidenta que com o questionamento da metodologia e
dos conteúdos abordados na escola. A segunda pergunta então é:
“Como orientar o grupo sem assumir o papel que me cabe neste meio,
que é o de agente repressor?”
A segunda pergunta
se pauta em duas certezas: uma que carrego desde o início da minha
formação profissional – de que eu não quero ser o agente
repressor - e outra que descende da minha percepção sobre o
ambiente escolar: é isso que se espera do professor.
A despeito das
novas correntes pedagógicas que pintam o professor mais como líder,
orientador, é gritante, no meio escolar, a expectativa dos próprios
educandos de que o professor é aquele que põe ordem. De alunos
considerados exemplares que afirmavam que não fariam desenho porque
“desenho não é lição. Porque você não passa lição?”,
passando pelos que se recusaram aos jogos teatrais afirmando que
“aquilo não é aula de artes, professor de arte tem que pedir
desenho”, até o rapaz da sétima série (oitavo ano) que
recentemente me disse que jogava livros na cabeça dos colegas por
que “você (no caso, eu) não faz nada” tenho colecionado uma
grande quantidade de afirmações que remetem à ideia de que um bom
professor, na concepção de alunos e pais de alunos, é aquele que
passa muita lição, não deixa ninguém falar nada, fala alto e
grita sempre que “necessário” e manda para a direção ou chama
os pais de quem sai minimamente da linha.
Diante deste
quadro, insistir numa pedagogia moderna, pautada no lúdico como
elemento educador dentro da escola pública tradicional significa
enfrentar a taxação de “professor que não é sério, não quer
trabalhar, deixa a turma fazer o que quer, só fica brincando”. O
resultado dessa taxação, no mais das vezes, é um ambiente caótico
e agressivo principalmente aos alunos mais tímidos. Se o professor
não se impõe como o mais forte a dominar o grupo, algum jovem
assume esse papel e oprime cruelmente os seus pares.
Eu poderia fazer
uma terceira pergunta: “Como transformar a visão dos educandos
sobre o papel do professor?”, mas, ultimamente abandono todas e e
contento com “O que eu estou fazendo aqui?”
domingo, 18 de agosto de 2013
...
Na morte, pudesse escolher
que me enterrassem num jardim
Virava adubo, árvore, fruta,
Comida de passarinho
E então,
voando,
ia pro céu.
que me enterrassem num jardim
Virava adubo, árvore, fruta,
Comida de passarinho
E então,
voando,
ia pro céu.
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