Comecei a me sentir incoerente... então senti necessidade de por tudo o que estava dentro pra fora, pra olhar de longe e tentar entender como funciona...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia do Trabalho

Direto do ano 2000, interlocutora com 8 anos na época:

"Lu, qual sua profissão?
Eu trabalho como web designer, faço sites.
Não, Lu, A sua profissão... assim: Médica, veterinária, advogada....
Hum... então. Chama-se webdesigner.
Não, Lu... você não entendeu o que eu perguntei... Eu perguntei a profissão..
(Aí eu desencanei de explicar que aquela palavra estranha era o nome de uma profissão....)
Eu também sou Bailarina.
Não... Lu... a profissão...
E professora, de ballet.
Não... Lu... você não está entendendo... Profissão, Lu, assim ó: Médica, veterinária, dentista, advogada... Profissão, entende?"


Ironicamente, o pai dessa menina era músico.

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Era um almoço. Desses que eu mesma gosto de armar, mas não era eu quem cozinhava. Eu tinha fome.

O prato, um não-sei-quê vegetariano, montado um a um por um cozinheiro prestimoso que explicava: este é o pão, a dispunha algumas fatias de abobrinha sobre a forma, esta é a carne, e arrumava os legumes refogados... devia ser montado e assado um a um. Era um processo lento. E eu tinha fome.

Este é o dela, este é o dele, e eu com fome.

Haviam na sala personagens de diversas partes da minha vida e todos eram servidos, um a um, antes de mim. E eu tinha fome.

Quem já me viu com fome sabe que eu sofro e grito e brigo e choro e xingo e desespero e surto e... mas o prato nunca era meu. E eu... a fome.

 Lá pelas tantas meu amor - que já me conhece - passa na frente de alguém e me entrega um prato.

Eu, enfim salva, pego talheres. São duas facas. Volto e busco mais um garfo. É outra faca. Vou procurar na gaveta, depois não sei.

Só sei que acordo sem ter podido tocar na comida.

terça-feira, 8 de abril de 2014

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Maldita seja a "hora de acordar".
Maldito o relógio biológico que não se enquadra.
É até provavel que eu durma, de cansaço e obrigação,
mas não, não de sono:
Por dentro, passada à meia-noite, meu corpo é uma festa.
Ele sabe que é hora de vida e poderia correr, dançar, ler
mas não lhe peça que descanse.

Eu peço. Todo dia.
Maldita a vida responsável que nos aprisiona.

Talvez, como afirmam os trans, eu tenha nascido no corpo errado:
devia era ter nascido gato.

quinta-feira, 6 de março de 2014

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As crianças dizem que não gostam de ler. Bobagem. A maior parte dos amantes da literatura não gosta mesmo de ler: gosta é do que está escrito. Olha as letras como baús de tesouros e abre, só pra ver o que tem dentro. Acostuma a esperar maravilhas e brilha os olhos só de imaginar. Ler, ler mesmo, o simples ato de decifrar o segredo dentro daquelas figurinhas pequenininhas, uma arrumada ao lado da outra, só encanta os recém alfabetizados, pra quem tudo é surpresa... acho eu.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Hilda

Permeava a minha infância o ter uma prima artista, poetisa. Palavras que eu, menina, não entendia mas mostrava aos colegas de classe como prova de uma origem mais nobre, de uma ascendência real.
Eu, na inocência desses anos primeiros, cria fervorosamente que ela era muito famosa por ter um  livro publicado, e me orgulhava disso. Não entendia a pequenez de uma publicação ante o mar de obras que transbordam nas livrarias e menos ainda a grandiosidade desta escritora e seu lugar dentro desse mesmo universo.




Não, não convivi com ela. Pelo que sei, meu lado da família nunca o fez, exceto pela minha mãe, que a foi procurar já adulta.
Não, também não a conheci. Deixei pra um depois que não houve, talvez a grande e irremediavel bobagem da  adolescência.

...

Eu detesto esse discurso do "professor-herói".
Aliás, detesto esse personagem que povoa nosso senso comum: o "Professor".
Não pretendo vestir essa máscara e fazer esse teatro de todo dia.

O que eu quero? Quero fazer meu trabalho em paz, olhar no olho dos muitos e responder, de tantas, as perguntas que couberem na minha parca experiência de vida e profissão.

Não serei o símbolo da sabedoria nem a salvadora da nação. Não trabalharei por amor nem farei horas extras voluntárias. Não serei eu a irresponsável que permitirá, via esforço sobre-humano, que as falhas estruturais da educação pública formal desta cidade se escondam e, assim, se perpetuem.

E não, não quero ser o herói de ninguém.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Momo e o Senhor do Tempo

Ontem eu terminei de ler um livro lindo, desses que tocam no fundo da gente.
Um livro sobre uma menina que sabia ouvir - Ah, que dom raro esse. Sabia ouvir de um jeito tão especial que as idéias se clareavam só dela estar ouvindo.
Sobre uma comunidade, um bairro numa grande cidade, onde quem tinha dúvidas as resolvia "Falando com Momo".
Sobre uma grande cidade onde homens cinzentos engravatados roubavam o tempo das pessoas.
Uma alegoria sobre esses nossos tempos (apesar do livro ser de 1973) em que deixamos de ver os amigos, de conversar com a família, de acariciar os bichos, pra economizar tempo e curiosamente esse mesmo tempo nunca nos sobra.
Quem dera pudéssemos apenas exterminar os homens cinzentos e voltar, repentinamente, a olhar as flores pelo caminho.

"mas o tempo é vida, e a vida mora no coração"