Comecei a me sentir incoerente... então senti necessidade de por tudo o que estava dentro pra fora, pra olhar de longe e tentar entender como funciona...

segunda-feira, 10 de março de 2025

A Ficha. De 16/10/2016

 Sempre que alguma mulher decide buscar um parto humanizado, ela o faz porque alguma coisa no modelo padrão de atendimento obstétrico feriu seu senso de lógica. Não, não basta que alguém lhe conte que aquele G.O. fofinho é, na verdade, um grande cesarista e vai arrumar uma desculpa pra operá-la antes do fim do pré-natal. Não, é preciso um estranhamento, é preciso que ela olhe pra alguma coisa e pense: não.... isso simplesmente não pode estar certo!


É a partir daí que buscamos mais e mais informação, e que descobrimos que muitas outras coisas não podem estar certas.

Pra muitas é a frequência de cesáreas - "de dez amigas minhas, jovens e saudáveis, as dez tiveram um problema e não puderam parir?" - pra outras tantas, infelizmente, foi a violência. 


Pra mim, o primeiro incomodo, a primeira sensação de que o mundo todo devia estar louco, foi quando eu soube que as mães não seguravam seus filhos ao nascer.


"Oi?!! Você está dizendo que mostraram ele pra você e levaram embora? Que sandice é essa?"


Não, definitivamente isso não faz o menor sentido.

 

Foi por isso que quando a minha irmã me perguntou se eu não achava estranho que todo mundo precisasse de cesárea eu não tive dificuldade em acreditar que todo o sistema estava viciado.


Muito obrigada, 

Paula Hilst, por toda a informação e todos os conselhos, 

Toda a Equipe da Casa Ângela;

Ana Duarte Nascimento, minha doula;

Dra Suzie Berger;

Barbara, acupunturista;

Maria Amélia Farah;

Mariana Castello Branco;

Dra Cláudia Magalhães;

Dr Braulio Zorzella;

Katia Barga;

Ana Cristina Duarte, Isabele Caterine e Letícia Ventura, parteiras;

Dra Renata Dourado;

Dra Silvia,

Bruna Quesada, fotógrafa;

Thais Olardi, acupunturista

Iraci Gassner,

Priscila e Barbara, as parteiras que estavam de plantão.


Graças a todos vocês, neste domingo escaldante, a 1h35, essa hora por pouco não devorada pela chegada do horario de verão, fez um mês que a minha Lia conheceu meu colo.

Registros

 Vez em quando encontro num registro coisas como 

"Não aceita o Não"

"Quer que tudo ocorra à sua maneira"

"Quando não é atendido, reage com agressividade".

...

Vontade que eu tenho é de servir um cerveja e dizer pra quem escreveu:

Miga, chô te contar: tem 8 bilhões de pessoas no mundo e isso aí serve pra descrever T-O-D-A-S.

Cê tá achando difícil com as criancinhas, experimenta falar não pra uma professora pra ver o que te acontece.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Despedida ao Tê

 


Perdemos o Tê.

O coelhinho que a Lia ganhou dos avós aos 3 meses e que se tornou a naninha preferida, o objeto de apego oficial que a acompanhou em todos os cantos por alguns anos e em todas as noites por mais alguns. 

O Tê, que se chamava Tê porque essa foi a primeira forma que ela disse coelho. Depois todos os outros viraram teio, toeio, coeio, coelho, mas o Tê ficou Tê pra sempre.

Eu me lembro do dia que esqueci na vizinha e ela virou meia noite acordada,  chorando. Lembro quando derrubamos no parque Ibirapuera e voltamos pra pegar e quando enqueci num restaurante, e voltamos pra encontrar. Lembro do coração na mão em cada situação e da cara do pai quando eu esquecia de mandar (as noites dele tb não deviam ser fáceis. )

De uns meses pra cá, ele não ia mais com ela dormir na casa do pai, não ia há algum tempo nas viagens, chegou a ficar perdido em casa uma semana sem que ela perdesse o sono. E eu? Eu estava tranquila. O que se perde em casa alguma hora aparece. 

Estava crescendo a menina, e esse desligar gradual fazia parte do processo.

Na última viagem, ela quis levar. Nem entendi porquê,  mas quis, e concordei. Lá, lembrou dele umas noites, outras não, como aqui. Nem ligada o suficiente pra lembrar o tempo todo, nem desligada o suficiente pra ir sem ele. 

Na hora de ir embora, de Bonito pra Campo Grande, o transfer chegou mais cedo, e me roubou os minutos daquela última checada, do "será que não esqueci nada?". Naquela noite, na capital, não nos lembramos. Na noite seguinte, quando me dei conta de que não lembrava de tê-lo visto, corri pra falar com a pousada. Mandei a foto, fiz mil perguntas: será que o novo hóspede não viu? Será que caiu atrás da cama? Será que foi parar na lavanderia?

Nada.

Segundo a atendente: a hospede não viu, a camareira não viu, ela procurou em todos os lugares e não achou.

A Lia? Disse pra eu não me sentir culpada, que a responsabilidade era dela ttambém. Usou essa palavra mesmo res-pon-sa-bi-li-da-de. Chorou apenas quando me perguntei se alguém teria se desfeito dele, achando que havia sido abandonado, e estaria com medo de aadmitir.No mais, parece bem e hoje, ao dormir, segurou a minha mão e disse que assim se lembrava dele.

Enquanto isso eu choro por ela. Choro o objeto perdido que eu sei que era querido. Choro a dor que ela não mostra. Choro o meu bebê que não é mais bebê, está crescendo. E sonho maneiras mirabolantes desse objeto perdido, tão querido, retornar. 

É, Tê. Eu te colocaria num quadro e te guardaria pra sempre, mas não deu. 

Uma amiga me disse que esse é o destino de todas as naninhas. E talvez seja mesmo. 

Espero que você se divirta e que encontre uma criança pra colocar pra dormir em Bonito. Pode ficar tranquilo que a nossa querida menina terá sempre a minha mão, até o dia que não precisar mais. 

Obrigada pela companhia.

domingo, 29 de setembro de 2024

Ódio

 Tem ódio demais no mundo. 

E o ódio me entra pelos poros e me queima a face com mil chamas invisíveis. 

E me queima o coração em mil noites que amanhecem insones.

E me queima o estômago, as solas dos pés e as veias.  Queima-me a alma.

Se eu devolvo o ódio que me entregam? Não é possivel devolver o ódio feito pacote entregue por engano, que nada de si deixa pra trás.  

O ódio, pra ser devolvido, precisa ser cultivado, crescer, florescer e então ser partilhado, deixando atrás de si um ser humano em chamas. 

Não,  eu escolho o amor. 

E a distância. 

Para não queimar junto.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Quando e onde

 Primeiro nos perguntamos se o racismo existia. Sim, existe.

Depois, se éramos racistas. Sim, somos. A sociedade é estruturalmente racista e todos nós temos atitudes racistas diariamente.

Agora, precisamos nos perguntar Quando? Onde?

Porque o reconhecimento de que vivemos em meio ao racismo desacompanhado de um profundo incômodo é uma aberração.

Porque reconhecer-se racista sem compreender que é preciso mudar não serve pra nada. 

Então é hora de procurar: qual o exato momento em que o racismo se manifesta nas minhas ações? E como, reconhecendo, eliminamos os gestos racistas, um a um.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Desenraizar

 Preconceitos, concepções ultrapassadas, olhares há muito superados...

uma porção de ervas daninhas estão enraizadas em nossos modos de existir.

É preciso enfiar as mãos nas entranhas e puxar as raízes, uma a uma. E vai doer. 

...

mas podar não resolve.

domingo, 5 de março de 2023

Olhar e ver-se

Olhar e ver-se.

Olhar e ver-se neste corpo

que não é mais o corpo de 20. que não é mais o corpo de 30.

(Re)ver-se

Atualizar-se

olhar e ver-se neste corpo não de 20, não de 30. 

Neste que não mais  gesta

nem amamenta.

Ver-se neste corpo que é e não é o mesmo

Neste corpo história

na curva que se inverte entre a cintura e os quadris

nas ondulações que cobrem os glúteos

nos seios que horizonalizam

nas bochechas, talvez mais cheias

olhar-se e ver-se

nas olheiras desde sempre, 

no nariz sempre proeminente, nunca olhado.

olhar-se

ver-se

Nas ondulações dos cabelos,

Nos olhos finalemente mais firmes.

olhar e ver-se neste corpo

Não o de 20, não o de 30.

nem menos, nem mais. Neste corpo outro

Neste corpo-hoje

olhar.

Olhar e ver-se

(Re)imaginar-se

Olhar-se

Ver-se.

Reconhecer-se.