Comecei a me sentir incoerente... então senti necessidade de por tudo o que estava dentro pra fora, pra olhar de longe e tentar entender como funciona...

domingo, 18 de junho de 2017

Das coisas que eu aprendi sobre amamentação....

Das coisas que eu aprendi sobre amamentação.... a minha e a das outras, no dia a dia e nas conversas.

É preciso ter informação

É muito difícil aprender qualquer coisa no susto dos primeiros dias. É importante aprender antes.

O xixi é a coisa mais importante do mundo. 
O leite tem muita água. Se água entra, água sai. Se água não entra, água não sai.
"Mas ele chora de fome, mas faz um monte de xixi..." não deve ser fome. Está mamando.
"A enfermeira/pediatra/parteira/minha mãe/vizinha disseram que a pega tá correta, mas não faz xixi." Não tá mamando. Nenê pequeno, espaço limitado: Se entra água, sai água. Se não sai é porque não está entrando.

Muitas de nós têm medo de ter pouco leite, mas, as vezes, o problema é muito leite. Leite demais. As vezes o peito fica duro e o bebê não consegue pegar direito e por isso não mama o suficiente.
Além disso, o leite vai se tornando mais gordo a medida que o bebê mama. Só que se o peito produz uma desmedida de leite e o bebê é novinho, as vezes a barriga enche antes da metade. Aí não chegou na parte que tem mais gordura, então ele não engorda. Cresce, se desenvolve, mas não engorda.
Moral da historia: as vezes, no começo, a gente precisa tirar um pouco de leite pro nenê mamar melhor.

Aliás... aprender a ordenhar é uma necessidade.

E... ordenha é uma coisa que se aprende aos poucos. Todo mundo fica um tempão tentando e tira só um pouquinho da primeira vez.

Entre os 30 e os 50 dias muitos bebês vão ter uma semana terrível, chorando horrores, puxando o peito, se jogando pra trás. Não sei o que acontece, mas acontece. E não tem nada a ver com o leite.

Também é comum que um bebê bem mamado fique assim.... com cara de mamado, bêbado de leite. A minha ficava assim. Não é uma regra, mas é um bom sinal.

Mamadeira e chupeta causam confusão de bico e dependência.
Confusão de bico é quando os bebês vão gradativamente esquecendo como mama no peito.
Não, eles não ficam preguiçosos, eles esquecem. Quem já tentou aprender duas coisas parecidas sabe como é difícil, depois de aprender a segunda, voltar a realizar a primeira. Vale pra dança, pra línguas, pra jogos, pra arte marcial. A gente acostuma com o jeito novo de fazer e se embanana todo quando tem que voltar pro jeito velho. As vezes se embanana com os dois e não faz nenhum direito.

É certo que isso vai acontecer? Não. É tipo loteria ao contrário. Você arrisca, se acontecer, vai ser difícil resolver, porque tem a dependência...

Dependência é quando o seu bebê chora, e VOCÊ SABE que se der a mamadeira ele vai parar. É a gente que se torna dependente. (Aliás, acho que a gente se torna dependente de basicamente tudo o que faz nosso bebê parar de chorar desconsolado) Eu preferi nem começar.

E vale ressaltar que
Bebês chupetam o peito. E é bom que eles façam isso. Deixa fazer. Estimula a produção de leite. Funciona melhor que comer milho ou tomar os remédios que tanta gente indica por aí.

Bebê novinho acorda a noite e chora. Eles são assim. Quando alguém me conta, feliz da vida, que "o bebê de uma semana dorme doze horas seguidas" a minha próxima pergunta é: E o xixi? Faz muito xixi?

Só vale a pena falar dos medos e das dúvidas em grupo de apoio. Existem grupos de apoio específicos pra amamentação, como a Matrice. Aliás, ter um grupo de apoio é indispensável. A sua família pode ser um, ou pode ser justamente o contrário.

O mundo, definitivamente, não é um grupo de apoio. A maior parte das pessoas não acredita na amamentação, acha legal mas também acha que "ter leite" é como ganhar na loteria - coisa pra poucas, imensamente sortudas. Mas não, ao contrário: NÃO TER leite é estatisticamente menos provável que ganhar na loteria.

Acontece que boa parte dos profissionais teoricamente habilitados a orientar amamentação não sabe fazer isso. E muitos nem querem. Pediatras, enfermeiras, etc... de instrução torta em instrução torta o leite seca e aí não tem mais volta.

Muita gente se ressente de não ter conseguido amamentar. Como muita gente se ressente de não ter conseguido parir. São feridas que aparecem só de ver que a gente conseguiu, feridas que transparecem nos relatos. Empatia nunca é demais, mas nesse caso requer saúde. Quando a gente tá insegura não tem condição de ficar ouvindo relato do que deu errado: é importante saber se respeitar e mandar a pessoa parar. Numa boa, todo respeito pela dor dos outros, mas sem carregar o mundo nas costas.

E aí? Vai um mamazinho?

sábado, 20 de maio de 2017

A morte do cão

Dias longos, sonos pesados, sonhos fortes...

Eu e minha irmã - não exatamente a irmã Paula, uma espécie de eu-irmã) tínhamos que entrar num grande terreno, cheio de outros cães, com dois cães perdidos. Os cães do lugar tentam pegá-los, não fazem com maldade, mas sabemos que os matarão se permitirmos. Eu corro e consigo proteger o que está comigo. Ela não.
"Ele só queria fazer xixi"... Ela dizia, em prantos.
Os gritos, o choro e a dor ainda ecoam na minha cabeça quando acordo.

Penso no Frederico.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A morte do gato.

A Renata chama os amigos e diz que  os gatos estão doentes e precisam de uma operação. Falo com ela em particular, ela diz q tem que operar o meu. Levo o Frederico pra ela. Dois amigos estão comigo, um deles é o Iraçu. Em algum momento ela admite q tem câncer e está morrendo.
A Kátia chama os amigos e manda td mundo comprar um sapato na loja do lado que está em promoção pq faliu pra fazer um amigo secreto. Tento argumentar que não vai dar certo se não sortearmos antes pra saber o número certo.
Vou buscar o sapato com o Daniel e a Ana, erramos o caminho, vemos de longe nossa kombi cair de um despenhadeiro.
Reencontramos a Renata. Os amigos não estão. Falo com eles em particular. Pergunto como estava meu gato no início da operação, se ela de fato encontrou algo, por que eu tinha a sensação de q ele tinha confiado em mim e eu o tinha deliberadamente levado pra morte. Ela admite q fez de propósito. Diz que está morrendo e que, se ela não vai viver
... Me cai a ficha... "Então eles também não vão".
Saio da sala com raiva e começo a contar a todos o que ela fez, que ela inventou a operação pra matar os gatos. Ela admite.  Eu me lembro que ela está morrendo e tenho dó. A abraço e digo: eu te amo. Mas eu tb tenho raiva e medo.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Frederico II

Ele foi embora.
Foi assim de noite, no meio, entre um dia e outro.

Hoje ele estava aqui.
Amanhã não.

Acho que eu não durmo porque não quero que amanhã chegue.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

...

Quando a primeira vez amamentei deitada e depois dormimos, senti-me uma cadela com um filhotinho. Todo o meu parto e puerpério foram assim, recheados de imagens de bichos, eu-fêmea-com-filhote.

Se rosnei, perdoem-me. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Os 35 monstrinhos

Era uma vez 35 monstrinhos que se alimentavam da tristeza alheia. Digo, de verdade, comiam mesmo. Comiam e comiam e a tristeza ia embora e as pessoas se sentiam leves.

Até que um dia, um monstrinho teve uma ideia. Se ele deixasse as pessoas tristes, então haveria mais e mais tristeza e ele se empanturraria. Contou aos demais e alguns acharam genial! Botaram então o plano em prática, espalharam tristeza pelos 4 cantos do mundo e então comeram e comeram até suas barrigas explodirem. De barrigas vazadas, choraram de dor, lágrimas de alimentar colegas - afinal, tristeza é tristeza, de monstro ou de gente.

Mais e mais monstrinhos se deslumbravam com o vislumbre de um banquete, e desconsideravam as lágrimas dos colegas que, panças abertas, continuavam a comer feito o saco sem fundo que se tornaram. Mais e mais tristeza povoava a terra, mais e mais monstrinhos explodiram, até que, tarde demais se deram conta do desastre: se os seus esburacados estômagos podiam tudo engolir, era porque nada retinham. Os monstrinhos começaram a minguar de fome.

Só um sobrou no mundo que não se deslumbrou em produzir o próprio almoço. Ironicamente, só, chora de saudade e se alimenta das suas próprias lágrimas, que dão e sobram à sua parca fome.

Ninguém mais devora mais nossas dores, as quais devemos carregar pessoalmente, cada um a sua.

sábado, 31 de dezembro de 2016

O tesouro

Em consequência da morte do herdeiro, da morte do herdeiro do herdeiro e da morte do herdeiro do herdeiro do herdeiro, foi decretado sucessor do trono o traidor.
Fez saber o monarca moribundo que aquele que tantas pedras lhe atirara deveria carregar o fardo de ser o próximo alvo. Convocou o pobre felizardo por carta secreta e selada, a qual teve resposta diligente, mas desprovida da alegria que se espera tais prêmios. Havia pois o reino, as terras, as festas, o tesouro....
Passadas as primeiras noites foi dominado pelo medo o antigo plebeu. Disse a todos que encontrou que retornaria quando se consumasse o fato, e correu sem olhar pra trás.
Estamos perdidos, diziam uns ministros. Não sabe, não quer, não assumirá. Posso assumir em seu lugar, dizia um outro. Nos resolveremos sem ele. Será um bom rei, dizia o embaixador vizinho. Conhece a dureza da tarefa, por isso a teme. Será esforçado e responsável, não se perderá em festas e deleites. Teme, pois não admite fracasso.
Passados alguns meses, recebe o dito em seu esconderijo a notícia de que está esgotado o tempo do medo e do segredo. O monarca está morto.
Apresenta-se no palácio o sucessor num esforço vão de esconder tremedeiras. É informado de que, antes de falar ao povo, deve conhecer o tesouro secreto real, aquele que apenas os monarcas tem direito de ver. Recebe a chave cravejada de jóias e deixa-se conduzir.
Ao entrar, depara-se não sem surpresa, com uma sala confortável, mas simples. No centro, um espelho. Mira-se em êxtase por minutos muitos, para então, com renovada certeza, ir falar à multidão.
Comete erros e acertos, como os reis todos. Um tanto de tradição e um tanto de renovação, como se esperaria de crítico tão ferrenho. Leva a cabo a missão com esforço admirável e boa teimosia e renova-se, de tempos em tempos, na sala onde todos imaginam ouro e jóias, mas ele só vê a si mesmo, cada dia um pouco diferente do anterior.